sábado, 16 de novembro de 2013

A Maternidade.




Uma roda de amigas. Mulheres maduras, alinhadas com o Universo conversam sobre os seus anseios e perspectivas. Há um tema em pauta: ser ou não ser mãe, eis a questão trazida pela minha linda amiga. 
O tempo é implacável sobre a biologia. Cronos devora-nos mulheres mais rápido que aos homens. Estes envelhecem como um bom vinho. Ou logo viram vinagre. 
Aparentemente sob o véu dessa injustiça, existe à luz do amadurecimento, a percepção de que a maternidade transcende: transcende os laços materiais e os anseios espirituais.
Como cada mulher vê essa questão dependerá da percepção que tem quanto ao seu próprio papel social e afetivo.
Há mulheres que fazem da maternidade a sua única razão de ser. Já ouvi uma vez  “se você não tiver um filho, nunca saberá o que é amor.” Quero que alguém ouse me dizer que não sei o que é amor, se, por um ano e meio, em minhas atribuições profissionais cheguei a produzir leite, durante meu trabalho de maternagem e estimulação neuropsicomotora de um bebê que não tinha os olhos, nem o nariz e era dono do sorriso sem dentes mais lindo do mundo...Não precisei pari-lo para ter por ele amor imenso a ponto de conseguir distinguir meu papel profissional e entregar-me inteira a ele, sem no entanto perder de vista qual era o cerne da nossa relação. Foram inúmeras as vezes que tive vontade de trazê-lo embora, de adotá-lo, de lhe dar um lar. O momento mais lindo e mágico dessa relação, no entanto, foi quando a sua família, que o havia abandonado no hospital, finalmente levou-o para casa. 
Uma das amigas contou da acusação que já ouviu algumas vezes “você é egoísta por não querer ter filhos. Não sabe dar amor.” E ela, em toda a sua virtude reflete: qual o tamanho do egoismo colocar filhos no mundo para satisfazer uma vaidade? Conversamos sobre o quanto algumas mulheres têm seus filhos mais para satisfazer uma expectativa social e biológica do que qualquer outra coisa.
A verdade é que existe algo de sagrado na mulher em poder criar a vida em seu ventre. Mas isso não quer dizer que não a possa criá-la em sua alma. A obra de uma mulher, ao que talvez a nossa cultura ainda não está exatamente acostumada, pode ocupar o lugar de um filho. O amor à arte, ao conhecimento, à vida, à ruptura com os paradigmas podem constituir uma prole de real importância. 
Parte de nós considerava naquela roda a maternidade como um assunto encerrado, parte não. 
O cheiro de um bebê, os olhos brilhantes de uma criança na noite de Natal ao desembrulhar os seus presentes, as indagações, poder formar um ser humano que contribua para uma humanidade melhor certamente são uma benção na vida de uma mulher. 
Mas para nós, mulheres que se dedicaram ao conhecimento, ao trabalho, a relações infrutíferas, ao amor ao próximo e não viram o tempo passar, há sempre um sem número de seres e causas a serem adotados para serem amados com um amor maternal sem precedentes, emanado diretamente do coração da Deusa.
Faça-se justiça também ao outro lado da moeda. Se de um lado nós que não somos mães biológicas de ninguém, por opção ou por força das circunstâncias (dignas de repulsa ou pena, respectivamente), do outro lado, a mulher que opta por abandonar sua carreira profissional para dedicar-se exclusivamente à maternidade também é julgada silenciosamente pela sociedade. Talvez um pouco menos, pois cumpre seu papel biológico/social, mas também é olhada com estranhamento pelas suas pares...como assim, depois do feminismo vai "abrir mão de tudo" e ser "só" mãe? É um assunto muito complexo, como tudo que envolve seres humanos e, em especial, mulheres. O importante, penso eu agora, ainda refletindo sobre o tema, é que possamos viver em um tempo no qual as posições não sejam estanques, em que haja leques e leques de possibilidades, para que se possa viver livremente, de acordo com os anseios de sua personalidade e de sua alma. Ainda que as circunstâncias muitas vezes sejam determinantes sobre essa questão, aquelas que podem fazer escolhas conscientes deveriam poder fazê-lo sem dilemas, sem serem julgadas. E nem vamos falar em aborto, então!

2 comentários:

  1. Está ótimo seu texto! Gostei muito. Explícito, honesto, consciente e amoroso, como nossa conversa. Vou salvar em meus favoritos para sempre reler. Bjs!

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