Por mim eu ficaria horas e horas apenas sonhando com aquilo que virá ou não virá, mas que é doce e encheria os meus dias de sol.
Ontem à noite, fiquei pensando em Proust, recluso em seu quarto fumeguento, como me apresentou-o Rui Coelho. Nunca li nada de Proust, shame on me!, mas agora fiquei com vontade de conhecer a sua estilística...embora Rui Coelho já tenha advertido que é melhor não buscar respostas às dúvidas existenciais em sua obra, dado o seu negativismo e destempero. Pensei muito na experiência dele, de trancar-se no quarto, perscrutar o espírito...
Ao ir dormir, observei as sombras em várias nuances que se formavam no teto do meu quarto. Devido ao calor deixei a janela aberta e formaram-se as sombras que pareciam dançar ao mudar de perspectiva a todo instante, conforme o foco que meus olhos cansados lhes davam. Dei-me conta do quanto não temos mais tempo para observar, para contemplar. Nosso cotidiano é preenchido de informações absurdas, velocidades insensatas, "coisas importantes!" que preenchem todo o vazio de nossa existência, gerando apenas mais ansiedade. Preenchemos nossos dias como quem vive de ir ao fast food, ao invés de nos deleitarmos com as impressões e percepções que podem vir de nosso inconsciente e da sutileza das nossas percepções. Ok, às vezes parece que surgirão monstros tenebrosos do inconsciente, mas eles são apenas parte não integrada do Eu... Poderíamos apenas nos deleitar com as impressões vindas de simples sombras que existem apenas apartir do que a nossa mente enxerga como realidade e dar-lhes sentido criativo, transformá-las num estudo de perspectiva, numa pintura, num jogo de formas, de de nuances. Mas não, não há tempo para isso. Há tempo apenas para as contas a pagar e para gerar mais gastos através do consumismo que nos pega em sua rede das sugestões da propaganda e do marketing. Não que sejamos vítimas deles, uma vez que ninguém nos obriga a isso. Optamos por ser "fúteis, cotidianos e tributáveis", como já disse o querido FP , de boa vontade e docilmente, embora nem sempre fazendo uma escolha consciente e voluntária a esse respeito. Comprazemo-nos e achamos até um tanto chique viver na pressa, na correria, como se sermos muito ocupados agregasse-nos valor social. Principalmente em São Paulo acho que temos essa cultura. As pessoas se matam no trânsito, dia após dia, não em brigas ou destemperos apenas, mas na perda do seu bem valioso, o tempo, que se esvai levando junto a vida. Mas ninguém (nem eu! --agora mesmo só estou escrevendo porque tenho "autorização para o repouso", ordens médicas!) faz nada para mudar. Olhar com pensamento crítico já é algo, no entanto. Mas precisamos de ações. Não de ações marqueteiras e superficiais. Ações. Agir. Fazer. Lembro-me às vezes de um pôr do sol muito especial. Um pôr do sol da minha adolescência solitária. Ele em si foi especial. Nem companhia, nem lugar, nada mais além dele próprio fizeram-no especial. O céu estava com aquelas nuvens fofinhas e imensas (terríveis cumulus nimbus, na verdade) e aos poucos o céu todo tornou-se de um rosa dourado pacificador de todos os corações, uma ou outra nuvem com um contorno dourado luminoso. Fiquei tão encantada que me lembro disso até hoje! No dia seguinte, comentei com alguns colegas da escola, perguntei se tinham visto aquele pôr do sol tão bonito e uma criatura me disse: "Eu não tenho tempo para isso." Fiquei (para variar) tão desconcertada! Mas dessa vez, diferente de outras vezes, achei que ela era absurda e estava perdendo todo seu tempo. Mas a verdade é que é assim que a nossa cultura anda pensando a vida: quanto mais preenchida de afazeres, de ocupações que não têm um sentido essencial, de superficialidades, marcas e produtos (e uma boa dose de gordura trans!) melhor. O problema não são as coisas em si, mas como lidamos com elas e o que priorizamos. Talvez estejamos perdendo o essencial, diante do dilema dos boletos a pagar no fim do mês.
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
Divagações...
Hoje cedo acordei já pensando, pensando...Talvez muitas ideias tenham se perdido entre meus cabelos falsamente loiros e o travesseiro...Mesmo assim sinto esta urgência de escrever, de refletir, como que para comprovar com as ideias digitadas que eu penso e por isso existo. Descartes não havia me passado pela cabeça até agora...mas estou impactada pelo sono sem sonhos da sedação para a cirurgia. Um sono maravilhoso, diga-se de passagem, mas que me fez refletir sobre a inconsciência e a inconsistência da ideia da permanência da alma após a morte...porque a minha sensação até então de permanência estava muito ligada a ideia de que talvez o mundo anímico se perpetuasse através de uma existência parecida com a do sonho, onde toda a individualidade não estaria preservada, mas uma noção de parte dela sim. E na inconsciência que vivi, somada à confusão da volta (não que eu tenha tido um estado confusional, graças a Deus - eis aqui a minha confissão de que eu realmente acredito! - a minha volta à consciência foi bem tranquila) pude perceber que se tivesse morrido ali, sedada, provavelmente nem perceberia. A questão da consciência, oriunda das percepções que vêm de nossos sentidos novamente me intriga. Eu estava mais entregue aos fatos, de que aparentemente existe um Além sim, não necessariamente como descrito pelas religiões, mas algo que se perpetua, mas agora não que esteja exatamente em dúvida, pois creio na eternidade da alma, mas estou bem em dúvida sobre o como ela se dá. Somos energia, para mim isso não há dúvida. E há algo mais que anima a biologia de nosso corpo: fato. Quando vi meu pai em seu caixão não tive dúvidas que nosso corpo é realmente apenas um invólucro, ele não estava mais lá. A essência que animava aquele corpo não estava mais ali. Ali. Ali é uma definição de lugar. Onde ele estava, então? Onde ele está agora? (Além de aqui bem perto de mim...). Lugar tem a ver com espaço. Espaço é uma criação da percepção humana que se desenvolve para compreender o mundo. Criação. Palavra-chave para a humanidade. Tempo, outra criação para nos conformarmos à realidade material em que aportamos. Mas então. A bendita consciência! Quando Descartes saiu com essa do "Cogito Ergo Sum" acho que era mais ou menos isso que queria dizer...claro que a dimensão do sentir é importante. Mas o pensar (englobando não só o raciocínio, mas todas as funções cognitivas) e a autoconsciência parecem ser elementos chave da nossa noção de EU. Enquanto eu estava sedada, meu corpo ficou ali, inerte, à mercê dos bons cuidados da equipe médica. Não tenho dúvidas que o tempo todo houve um "algo mais" de proteção, mas a questão agora não é essa. Mas é como se dá a noção de consciência e de individualidade. Quando voltei da sedação, a primeira coisa que senti foi confiança ao ver meu marido segurando minha mão. Mas na verdade, acho que teria sentido confiança de qualquer forma, ele foi um plus, porque meu estado geral estava alterado, eu estava...."legal" rsrsrs. Tanto que, quando o médico ali me informou que, por eu estar vomitando muito, precisaria dosar meu potássio e caso estivesse alterado precisaria ir para a semi-intensiva, o meu parco pensamento foi..."legal...vou conhecer a semi-intensiva e ter histórias para contar". Não senti medo, não dimensionei nenhuma gravidade na situação, estava confiante de que eu estava bem. Senti-me lúcida o tempo todo lá, mas ontem conversando com o Zé descobri que eu não lembrava da missa a metade, apenas flashes. Isso é muito interessante, não é a coisa mais confortável do mundo a sensação de perda de controle, por isso acho que já acordei tão reflexiva sobre isso. O que acontece ao Eu após a morte? Existe alguma dimensão de consciência? Como essa consciência funcionaria se a noção de Eu e de consciência estão tão intimamente ligadas às funções cerebrais. Essas são perguntas talvez eternamente sem respostas...mas acho interessante refletir, porque a forma como encaramos o além-mundo define como vivemos a vida! Parei para pensar: por que estudo tanto? Por que conhecer o cérebro humano que me fascina tanto? Por que seguir tantas regras e dimensionar meu existir num campo ético tão estrito? Para mim faz muito sentido acumular conhecimento: será aproveitado na evolução de minha alma! Será? E se o tempo que eu estou gastando fazendo tudo certo, for o tempo no qual eu deveria estar correndo pelos campos, tomando banho de mar e de cachoeira, livrando-me de todos os conflitos e buscando apenas ser feliz? Buscando?! Buscando nada! Apenas sendo! Aí que eu parei para entender o quanto pautamos (ao menos eu pauto) minha existência na existência de um amanhã, de um futuro...que não existe! Existirá...ou não...e aí passa a fazer todo o sentido do que o budismo diz (conheço muito pouco) sobre viver no presente. Que é o único tempo que a nossa consciência conhece. O passado é memória. E o futuro ainda virá, seja como for...ou não. Percebi que vivemos (primeira pessoa do plural, porque acho que não sou a única) em função de "construir o amanhã", em estado de eterno adiamento, inclusive da felicidade e não vivemos o presente, chave para essa construção. A vida deve ser leve, para que não seja um fardo de sofrimento e provações em busca de atingir algo maior e nem tampouco as provações, os ciclos contrários ao que reconhecemos como o bom, deveriam ser tão valorizadas como o caminho para atingirmos esse algo maior. Podemos criar assim a realidade que quisermos e desejarmos, ao que parece. A consciência é algo muito poderoso e ela sim, algo que nos define, só não sabemos como usá-la corretamente. Ficamos esperando por um uso que talvez nunca venha. Eu acredito, já disse, na eternidade da alma, acredito em almas que se encantam e reconhecem-se imemorialmente, acredito e sinto tantas coisas! Mas nem por isso deixo de refletir e usar meu livre pensamento para existir. E a melhor parte da história, a qual como mulher só tenho a comemorar, é que não existem mais fogueiras para nos queimar! De qualquer forma, a humanidade vem evoluindo...e aí meu outro pensamento da manhã: o quanto existe de fato a individualidade ou de fato o conhecimento que acumulamos ao longo da vida preserva-se não na individualidade, no Eu, mas no coletivo, numa Alma Humana, que se perpetua pela biologia e pela História, pela memória cultural...
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