quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Sombras da noite

Por mim eu ficaria horas e horas apenas sonhando com aquilo que virá ou não virá, mas que é doce e encheria os meus dias de sol. 
Ontem à noite, fiquei pensando em Proust, recluso em seu quarto fumeguento, como me apresentou-o Rui Coelho. Nunca li nada de Proust, shame on me!, mas agora fiquei com vontade de conhecer a sua estilística...embora Rui Coelho já tenha advertido que é melhor não buscar respostas às dúvidas existenciais em sua obra, dado o seu negativismo e destempero. Pensei muito na experiência dele, de trancar-se no quarto, perscrutar o espírito...
Ao ir dormir, observei as sombras em várias nuances que se formavam no teto do meu quarto. Devido ao calor deixei a janela aberta e formaram-se as sombras que pareciam dançar ao mudar de perspectiva a todo instante, conforme o foco que meus olhos cansados lhes davam. Dei-me conta do quanto não temos mais tempo para observar, para contemplar. Nosso cotidiano é preenchido de informações absurdas, velocidades insensatas, "coisas importantes!" que preenchem todo o vazio de nossa existência, gerando apenas mais ansiedade. Preenchemos nossos dias como quem vive de ir ao fast food, ao invés de nos deleitarmos com as impressões e percepções que podem vir de nosso inconsciente e da sutileza das nossas percepções. Ok, às vezes parece que surgirão monstros tenebrosos do inconsciente, mas eles são apenas parte não integrada do Eu... Poderíamos apenas nos deleitar com as impressões vindas de simples sombras que existem apenas apartir do que a nossa mente enxerga como realidade e dar-lhes sentido criativo, transformá-las num estudo de perspectiva, numa pintura, num jogo de formas, de de nuances. Mas não, não há tempo para isso. Há tempo apenas para as contas a pagar e para gerar mais gastos através do consumismo que nos pega em sua rede das sugestões da propaganda e do marketing. Não que sejamos vítimas deles, uma vez que ninguém nos obriga a isso. Optamos por ser "fúteis, cotidianos e tributáveis", como já disse o querido FP , de boa vontade e docilmente, embora nem sempre fazendo uma escolha consciente e voluntária a esse respeito. Comprazemo-nos e achamos até um tanto chique viver na pressa, na correria, como se sermos muito ocupados agregasse-nos valor social. Principalmente em São Paulo acho que temos essa cultura. As pessoas se matam no trânsito, dia após dia, não em brigas ou destemperos apenas, mas na perda do seu bem valioso, o tempo, que se esvai levando junto a vida. Mas ninguém (nem eu! --agora mesmo só estou escrevendo porque tenho "autorização para o repouso", ordens médicas!) faz nada para mudar. Olhar com pensamento crítico já é algo, no entanto. Mas precisamos de ações. Não de ações marqueteiras e superficiais. Ações. Agir. Fazer. Lembro-me às vezes de um pôr do sol muito especial. Um pôr do sol da minha adolescência solitária. Ele em si foi especial. Nem companhia, nem lugar, nada mais além dele próprio fizeram-no especial. O céu estava com aquelas nuvens fofinhas e imensas (terríveis cumulus nimbus, na verdade) e aos poucos o céu todo tornou-se de um rosa dourado pacificador de todos os corações, uma ou outra nuvem com um contorno dourado luminoso. Fiquei tão encantada que me lembro disso até hoje! No dia seguinte, comentei com alguns colegas da escola, perguntei se tinham visto aquele pôr do sol tão bonito e uma criatura me disse: "Eu não tenho tempo para isso." Fiquei (para variar) tão desconcertada! Mas dessa vez, diferente de outras vezes, achei que ela era absurda e estava perdendo todo seu tempo. Mas a verdade é que é assim que a nossa cultura anda pensando a vida: quanto mais preenchida de afazeres, de ocupações que não têm um sentido essencial, de superficialidades, marcas e produtos (e uma boa dose de gordura trans!) melhor. O problema não são as coisas em si, mas como lidamos com elas e o que priorizamos. Talvez estejamos perdendo o essencial, diante do dilema dos boletos a pagar no fim do mês.

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