quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Divagações...

Hoje cedo acordei já pensando, pensando...Talvez muitas ideias tenham se perdido entre meus cabelos falsamente loiros e o travesseiro...Mesmo assim sinto esta urgência de escrever, de refletir, como que para comprovar com as ideias digitadas que eu penso e por isso existo. Descartes não havia me passado pela cabeça até agora...mas estou impactada pelo sono sem sonhos da sedação para a cirurgia. Um sono maravilhoso, diga-se de passagem, mas que me fez refletir sobre a inconsciência e a inconsistência da ideia da permanência da alma após a morte...porque a minha sensação até então de permanência estava muito ligada a ideia de que talvez o mundo anímico se perpetuasse através de uma existência parecida com a do sonho, onde toda a individualidade não estaria preservada, mas uma noção de parte dela sim. E na inconsciência que vivi, somada à confusão da volta (não que eu tenha tido um estado confusional, graças a Deus - eis aqui a minha confissão de que eu realmente acredito! - a minha volta à consciência foi bem tranquila) pude perceber que se tivesse morrido ali, sedada, provavelmente nem perceberia. A questão da consciência, oriunda das percepções que vêm de nossos sentidos novamente me intriga. Eu estava mais entregue aos fatos, de que aparentemente existe um Além sim, não necessariamente como descrito pelas religiões, mas algo que se perpetua, mas agora não que esteja exatamente em dúvida, pois creio na eternidade da alma, mas estou bem em dúvida sobre o como ela se dá. Somos energia, para mim isso não há dúvida. E há algo mais que anima a biologia de nosso corpo: fato. Quando vi meu pai em seu caixão não tive dúvidas que nosso corpo é realmente apenas um invólucro, ele não estava mais lá. A essência que animava aquele corpo não estava mais ali. Ali. Ali é uma definição de lugar. Onde ele estava, então? Onde ele está agora? (Além de aqui bem perto de mim...). Lugar tem a ver com espaço. Espaço é uma criação da percepção humana que se desenvolve para compreender o mundo. Criação. Palavra-chave para a humanidade. Tempo, outra criação para nos conformarmos à realidade material em que aportamos. Mas então. A bendita consciência! Quando Descartes saiu com essa do "Cogito Ergo Sum" acho que era mais ou menos isso que queria dizer...claro que a dimensão do sentir é importante. Mas o pensar (englobando não só o raciocínio, mas todas as funções cognitivas) e a autoconsciência parecem ser elementos chave da nossa noção de EU. Enquanto eu estava sedada, meu corpo ficou ali, inerte, à mercê dos bons cuidados da equipe médica. Não tenho dúvidas que o tempo todo houve um "algo mais" de proteção, mas a questão agora não é essa. Mas é como se dá a noção de consciência e de individualidade. Quando voltei da sedação, a primeira coisa que senti foi confiança ao ver meu marido segurando minha mão. Mas na verdade, acho que teria sentido confiança de qualquer forma, ele foi um plus, porque meu estado geral estava alterado, eu estava...."legal" rsrsrs. Tanto que, quando o médico ali me informou que, por eu estar vomitando muito, precisaria dosar meu potássio e caso estivesse alterado precisaria ir para a semi-intensiva, o meu parco pensamento foi..."legal...vou conhecer a semi-intensiva e ter histórias para contar". Não senti medo, não dimensionei nenhuma gravidade na situação, estava confiante de que eu estava bem. Senti-me lúcida o tempo todo lá, mas ontem conversando com o Zé descobri que eu não lembrava da missa a metade, apenas flashes. Isso é muito interessante, não é a coisa mais confortável do mundo a sensação de perda de controle, por isso acho que já acordei tão reflexiva sobre isso. O que acontece ao Eu após a morte? Existe alguma dimensão de consciência? Como essa consciência funcionaria se a noção de Eu e de consciência estão tão intimamente ligadas às funções cerebrais. Essas são perguntas talvez eternamente sem respostas...mas acho interessante refletir, porque a forma como encaramos o além-mundo define como vivemos a vida! Parei para pensar: por que estudo tanto? Por que conhecer o cérebro humano que me fascina tanto? Por que seguir tantas regras e dimensionar meu existir num campo ético tão estrito? Para mim faz muito sentido acumular conhecimento: será aproveitado na evolução de minha alma! Será? E se o tempo que eu estou gastando fazendo tudo certo, for o tempo no qual eu deveria estar correndo pelos campos, tomando banho de mar e de cachoeira,  livrando-me de todos os conflitos e buscando apenas ser feliz? Buscando?! Buscando nada! Apenas sendo! Aí que eu parei para entender o quanto pautamos (ao menos eu pauto) minha existência na existência de um amanhã, de um futuro...que não existe! Existirá...ou não...e aí passa a fazer todo o sentido do que o budismo diz (conheço muito pouco) sobre viver no presente. Que é o único tempo que a nossa consciência conhece. O passado é memória. E o futuro ainda virá, seja como for...ou não. Percebi que vivemos (primeira pessoa do plural, porque acho que não sou a única) em função de "construir o amanhã", em estado de eterno adiamento, inclusive da felicidade e não vivemos o presente, chave para essa construção. A vida deve ser leve, para que não seja um fardo de sofrimento e provações em busca de atingir algo maior e nem tampouco as provações, os ciclos contrários ao que reconhecemos como o bom, deveriam ser tão valorizadas como o caminho para atingirmos esse algo maior. Podemos criar assim a realidade que quisermos e desejarmos, ao que parece. A consciência é algo muito poderoso e ela sim, algo que nos define, só não sabemos como usá-la corretamente. Ficamos esperando por um uso que talvez nunca venha. Eu acredito, já disse, na eternidade da alma, acredito em almas que se encantam e reconhecem-se imemorialmente, acredito e sinto tantas coisas! Mas nem por isso deixo de refletir e usar meu livre pensamento para existir. E a melhor parte da história, a qual como mulher só tenho a comemorar, é que não existem mais fogueiras para nos queimar! De qualquer forma, a humanidade vem evoluindo...e aí meu outro pensamento da manhã: o quanto existe de fato a individualidade ou de fato o conhecimento que acumulamos ao longo da vida preserva-se não na individualidade, no Eu, mas no coletivo, numa Alma Humana, que se perpetua pela biologia e pela História, pela memória cultural... 

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