Hora de eu ser minha. Não há mais mistérios inexoráveis na vida a serem explorados a não ser esse. Como viver essa tal de plenitude e integração por si mesma?
Hora de olhar-me no espelho e amar: o que vejo, o que sinto, o que almejo.
Hora de projetar em mim toda a sabedoria e todo amor do Universo. Chega de sentir que sou sua quando sou minha. Hora de sentir por meus lábios tamanho desejo que somente eu poderia amá-los tanto assim. De fazer com que cada célula do meu corpo vibre de alegria e de felicidade quando me vir. Simples assim. Grande assim. Imensa em mim.
Nenhum amor, nenhum homem, nenhuma mulher poderão completar isso em mim, é o que dizem.
Se nos teus braços pude sentir toda paz e quietude, toda a mansidão e a amorosidade do Universo, toda a calma que eu queria encontrar, foi apenas porque elas já estavam todas em mim.
Sim, eu fui sua, apenas em alguns aspectos, apenas enquanto eu quis, mas você não pôde me levar adiante. Você não pôde aprofundar o conhecimento. Você não pôde mais, não aguentou o ritmo da valsa.
No ritmo do tango, no ritmo da festa, esse delicioso palco de aventuras, você não se aguentou e recolheu-se de mim.
Aqui fico eu, agora exausta, sabendo da loucura insana disso tudo, não do que vai por fora, não do que chocaria a sociedade, não do que destruiria instituições...sabendo da loucura insana do que vai por dentro, apego, ilusão, projeção...fico contemplando minha insanidade de querer simplesmente ser sua porque sei que sou minha e fujo disso.
Sou imensa. Sou intensa. E a completude da vida que me tolhe, espreme, comprime, alarga também os meus horizontes interiores, completa de segurança as minhas lacunas, acolhe falsamente a minha dor.
Sou profunda como um lago escuro e nessas profundezas vivem monstros em abismos os quais eu nunca quis ver. Mas agora eles vêm assombrar-me à noite e dizer-me que sou solidão. Mas se é na solidão que posso ser inteireza, solidão eu sou. Se é na união de olhares, que seja então.
Como posso ser inteira sozinha se me aquecem tanto o olhar, o afago, o abraço, o aconchego? Como posso encontrar o calor e o carinho disso tudo em mim mesma? Não será isso também uma ilusão?
Como posso aquecer a ferida que estanca o sangue no coração e não deixa mais a vida circular por todos os meus poros? O que fazer para não mais te desejar?
Ah, meu amigo, meu irmão, meu amor...como posso ser eu nestes descaminhos desta estrada vazia, nesse por de sol violáceo onde só tenho a mim mesma para me bastar?
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