Aqui estou eu sentada, fitando as águas destes canais que não entendo muito bem o que são...se mar ou se rio. Só sei da sua cor esmeralda que me encanta a alma e fala-me daquilo que eu sou que é aquilo que eu gostaria de ser e não sou. Entenderam? Nem eu.
O calor que me aquece o corpo já vem de fora e não mais de dentro. Dentro fica a calidez de um fogo que se extinguiu, exaurido por tantos senões. Chama que ardia brilhante folgueada pelos rodopios da juventude e hoje não passa de uma sombra mal dormida.
Vejo essas águas verde esmeralda e sinto vontade de nadar livre e nua por elas, integrando-me assim à força da Grande Mãe.
A luz do sol grita nas paredes coloridas das pequenas casas que ladeiam as ruas vazias. É um silêncio vibrante, uma paz que se acende dentro de mim. Vida e calma. Arte e repouso. Ah! Como eu queria ser assim...
Elas são mar. Adriático. E cantam-me histórias de uma vida que eu poderia ter. De um talento que eu poderia fazer crescer, mas que se oprime diante das lutas do dia a dia e dos meus olhos críticos que me acham... chata. Os mesmos olhos que fitam essas águas verde esmeralda e as cores vibrantes dessas paredes.
Deveria eu me contentar com uma vida mais simples e tranquila. Mas para ter uma vida simples e tranquila eu preciso de coisas a conquistar, como a expressão do meu dom.
Mas às vezes esse dom me soa tão corriqueiro que aquilo que talvez pudesse encantar temo que só me faça vexar...
Não quero ser Van Gogh nem Fernando Pessoa... embora eu ouse pensar que possa haver uma centelha deles dentro de mim. Quero ser apenas eu mesma e da plenitude daquilo que eu sou, brilhar com desvarios sobre as ondas cálidas desse mar que só se perturba pelo passar dos barcos, marolando pela interação com os humanos.
Mas sobre o que escrever? Eu, sempre tão adversativa, pululo de ideia em ideia, projetos em projetos sem nada concretizar para me gratificar... Vivendo a vida dia após dia, cumprindo minhas obrigações, sufocando as emoções.
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